Dispo-me de conceitos que pensara possuí-los e deparo-me com conceitos que nem sequer ousara os haver pensado. A vida vai dia a dia aos poucos pondo-nos em um lugar que se distancia de todos. Talvez sejamos nós que distanciamo-nos por não fazer parte da forma consistente de buscar e encontrar noutros subterfúgios, ilegalidades sociais cometidas com sutileza. Sempre é válida a piadinha que ninguém sorrir, ainda assim, fora dita com o intuito de se agrupar, de pertencer a legiões que determinam que sejamos felizes, alegres e transmitamos uma luz esplendorosa.
Nunca percebemos e respeitamos a maneira de ser do outro. Que seriam dos artistas, dos comediantes se todos fossem como eles? Não haveria platéia. Ainda nos habituamos a cobrar do outro o que não sabemos como nos comportaríamos em determinada situação, ainda que de pronto possamos dizer: “ “jamais agiria assim”! Estas respostas prontas são o eterno paradigma em que se colocam os “bonzinhos” e os “bandidos”. E como todo mundo se diz ser bonzinho, esta é uma resposta pronta e acabada. Quando no escuro de sua própria vida maculara várias vezes, em formas distintas esse ideal de ética.
Ao negarmos nosso afeto, negligenciarmos uma pessoa, discriminá-la e até rejeitá-la com a base do “diz-que-me-disse” não somos capazes de nos isentar destes preconceitos que em nada há de comprovado, apenas o boca a boca, a mais perfeita unanimidade burra da qual já nos falava Nelson Rodrigues. São estes que sempre preferem usar a fofoca mal intencionada, nada mais faz que brotar uma flor de lama na cabeça de tantos que não sabem se livrar nem das mais belas flores, quiçá saber discernir entre o que é e o ser que representa. E a verdade da fofoca passa a ser absoluta. Como se houvessem verdades absolutas. Mais uma técnica de adquirir confiança no grupo e os arrastarem ao que acreditam ser o magistral púlpito da ética, dos bons procedimentos, da educação e do “ser bonzinho”!
Mas, ser apedrejado sem direito a defesa é uma ação terrorista e por que não dizer sádica. Satisfaz ao ego perceber que todos compactuam do meu comportamento, de minha verdade, verdade essa escondida e camuflada para que de fato não percebam quem de fato é o atirador de pedras. Além de demonstar uma inveja de ver o outro tão dono de si, de sua própria vida e seguir sozinho fazendo seu caminho entre todos esses massacres, mas seguindo. O covarde se esconde em nada assumir, nem mesmo a fofoca descabida.
Ninguém que oportuniza conhecer o outro e se afogar neste outro, sem alertá-lo, persuadi-lo e ainda assim continuar em busca deste amigo perfeito, jamais pode ser chamado de amigo, colega ou algo assim. Ao contrário é o próprio disfarce da hipocrisia em que se sustenta. A pressa cotidiana, a maledicência humana nos distancia dos parâmetros humanos. É mais fácil atirar pedras que flores. E, se assim fosse feito, seria mais digno e honesto. Ao menos não ficaria no sublimar de descartar alguém de seu reduto apenas por não pertencer aos mesmos dogmas, à mesma tribo e todos saberem que a tribo dribla a ética da perfeição, sutilmente usa as máscaras de serem honestos, acima do bem e do mal, principalmente quando a conversa passa pelo campo subjetivo de nada comprovar e apenas alardear o que se supõe sobre alguém.A forma mais vergonhosa de não ter poder de dizer frente ao outro o que e porque estou lhe excluindo de minha vida e fiz meu grupo crer no que digo. Mas, simples, a gentileza hipócrita é mais subjetiva e não coloca ninguém no corpo a corpo. Minha verdade vira absoluta aos que a ouvem e seguem sem perceber que uma flor de lótus morre na lama. Mas se dizem elevados culturalmente, tecnicamente e espiritualmente apenas para enganar a maioria dizendo-se ter uma religião mascaro quem sou por pertencer a ela, Mera ilusão. A religião não é responsável pela nossa mesquinhez humana, apenas aplaca nossa culpa por nossa perversão em relação ao outro.
Esses mesmos, que com tamanha facilidade apontam, julgam e discriminam claramente o outro, são expurgos de tantos outros. Uma vez, quando passo a rejeitá-los de certa forma abomino algo que o outro tem e desejoso de também ser da mesma maneira é mais perspicaz expugnar. Assim, manter-se distante do rejeitado, aquele concorrente do meu eu que tento tanto esconder é uma questão de concorrência desleal e desumana. Pois, nega ao outro a oportunidade de defesa. Arde-se em inveja por aquele além de fazer claramente o que ensejo às escondidas, ainda é uma representação clara do perigo em retirar-me a possibilidade de fazer o mesmo.
A coragem e consciência faltam a quem se retira do palco pelo medo de não conhecer a peça ou de se ver retratado. Ou melhor, ainda, de tanto conhecê-la eu não preciso estar próximo. Seria desconfortável medir esforços para ser quem eu tanto sou e escondo, pois o invejo no meu mais recôndito e profundo íntimo, pelos desprendimentos de uma sociedade onde a corrupção e o feio estão no outro e nunca em mim mesmo.
Assumir minhas fragilidades é estar me colocando no papel do discriminado, do qual eu rejeitei. Assim é melhor calar para não perder o papel mascarado do bonzinho, do comportamento imaculado, da elegância e de todos os outros adjetivos que já se habituou em ser e esconder as próprias mazelas. Melhor então é gritar com altivez minha nobreza de espírito, de comportamento. Colocar-me no pedestal e escarnecer aos que posso ferir sem medir palavras. Posso tratar a vida dos outros como penas jogadas ao vento. Como fazer para recolhê-las depois? Nada a fazer. Pois não há consciência ao fazer por que a teria em submeter-se ao constrangimento de recolhê-las?
Kátia Teixeira
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