Tenho uma alma que me sobra
Uma ausência que me consome
Um tempo ao qual não detenho
E todos enlaçados em um nome
Não corrói a dor que medra
Nem destrói a flor que morre
Acaba o escuro em luz nascente
Fecha o vazio em um si cadente
Nada ontem é idêntico em si
Tudo em cadafalso se desatina
A dor mente a saudade cristalina
Da lágrima cadente se esgrima
Cuida do tempo o espaço raro
Este que não cabe mais nas horas
Dos versos tristes das noites turvas
Da cama vazia do seu corpo outrora
Ensaio palavras, mas o tom emudece
Não há quem as ouças, paredes e pedras
Enrijecem e entesam de branco a cor
Enegrecida do adeus sangue que ainda tece
Ilusão perdida em mil asnos adormecida
Ilhada a tesouros de gregos adornados
Vil fantasia insana, gasta e tresloucada
De um amor que nada apaga e de lá não sai
Vai uma hora, vai mais um dia e tudo se esvai,
Chegam às estações que enternece a calma
Vibra o coração com o natal proximal
Racional, o passo pesa e aquieta-se
Sentem-se saudades como em fios
Uma calda quente a desfilar
Cada linha que em torrente se incandesce
São gritos inflamados que adoece
Alma febril grita em estrondo mil
Tez sangrenta de amor fadado
Rouba a vida que morre vil
De loucura dos apaixonados
Dizer-te amar é louca fantasia
E as flores abrem-se em demasia
Nas auroras ausentes do seu tato
Carentes de seu abraço, o eu intacto
Adormece em raios dolentes ensolarados
Não vejo a xícara tilintar chorosa
Sua ausência em cheiro de café ardente
Arde meu peito em febril demasia
Se de amor não se morre? Por que vivo?
Se de amar não se vive? Por que morro?
A angústia de cada dia sem você
Esmero assassino, cada vez um pouco
Se fores para matar-me que me venha soberba,
Se fores para iludir-me dá-me apenas um beijo
Mas se me amas como dizes? Então foges
Arruínas de amar e enganar são tão fortes
Se morrer, o amor morre em mim
Se viver, ele teima em dominar-me
Do domínio, senhora da vida a espreitar
Vil engodo para aos ares me levar
Vou-me em vôo sem agasalho
Não medro a morte, não sinto o frio
Eles são constantes em minha sorte
Qual a rotina de deitar-se e dormir
Vai destino vil entregar-me ao leito final
Não morre o que nunca esteve vivo
Leva de mim esta alma fétida e vil
Que sempre amara sem ter a quem servir
Que não tenha túmulo, não sou da terra
Venho dos ares amados, dos céus longínquos
Deixem-me às velas do meu barco naufragado
Sobre mares e ventos espalharem minhas cinzas
Estarei plenamente livre do que nunca quisera ser presa
Em cada maré de barulho, ouvirá o torturante gemido
De quem amou, viveu e devotou um sonho enlouquecido
Serei o som do ar que misturado ao mar far-me-á liberta.
Kátia Teixeira