Seja bem vindo

Que todos vocês possam ler e deleitar-se com parte do que costumo escrever. Não me considero pronta, estou aprendendo, não deixo tudo que escrevo aqui, apenas uma parte pequena, pois breve pretendo lançar meu livro, onde estará tudo na íntegra.

domingo, 14 de novembro de 2010

VIDA MORTA

Tenho uma alma que me sobra

Uma ausência que me consome

Um tempo ao qual não detenho

E todos enlaçados em um nome


Não corrói a dor que medra

Nem destrói a flor que morre

Acaba o escuro em luz nascente

Fecha o vazio em um si cadente


Nada ontem é idêntico em si

Tudo em cadafalso se desatina

A dor mente a saudade cristalina

Da lágrima cadente se esgrima


Cuida do tempo o espaço raro

Este que não cabe mais nas horas

Dos versos tristes das noites turvas

Da cama vazia do seu corpo outrora


Ensaio palavras, mas o tom emudece

Não há quem as ouças, paredes e pedras

Enrijecem e entesam de branco a cor

Enegrecida do adeus sangue que ainda tece


Ilusão perdida em mil asnos adormecida

Ilhada a tesouros de gregos adornados

Vil fantasia insana, gasta e tresloucada

De um amor que nada apaga e de lá não sai


Vai uma hora, vai mais um dia e tudo se esvai,

Chegam às estações que enternece a calma

Vibra o coração com o natal proximal

Racional, o passo pesa e aquieta-se


Sentem-se saudades como em fios

Uma calda quente a desfilar

Cada linha que em torrente se incandesce

São gritos inflamados que adoece


Alma febril grita em estrondo mil

Tez sangrenta de amor fadado

Rouba a vida que morre vil

De loucura dos apaixonados


Dizer-te amar é louca fantasia

E as flores abrem-se em demasia

Nas auroras ausentes do seu tato

Carentes de seu abraço, o eu intacto


Adormece em raios dolentes ensolarados

Não vejo a xícara tilintar chorosa

Sua ausência em cheiro de café ardente

Arde meu peito em febril demasia


Se de amor não se morre? Por que vivo?

Se de amar não se vive? Por que morro?

A angústia de cada dia sem você

Esmero assassino, cada vez um pouco


Se fores para matar-me que me venha soberba,

Se fores para iludir-me dá-me apenas um beijo

Mas se me amas como dizes? Então foges

Arruínas de amar e enganar são tão fortes


Se morrer, o amor morre em mim

Se viver, ele teima em dominar-me

Do domínio, senhora da vida a espreitar

Vil engodo para aos ares me levar


Vou-me em vôo sem agasalho

Não medro a morte, não sinto o frio

Eles são constantes em minha sorte

Qual a rotina de deitar-se e dormir


Vai destino vil entregar-me ao leito final

Não morre o que nunca esteve vivo

Leva de mim esta alma fétida e vil

Que sempre amara sem ter a quem servir


Que não tenha túmulo, não sou da terra

Venho dos ares amados, dos céus longínquos

Deixem-me às velas do meu barco naufragado

Sobre mares e ventos espalharem minhas cinzas


Estarei plenamente livre do que nunca quisera ser presa

Em cada maré de barulho, ouvirá o torturante gemido

De quem amou, viveu e devotou um sonho enlouquecido

Serei o som do ar que misturado ao mar far-me-á liberta.


Kátia Teixeira